A inteligência artificial se tornou, em 2026, o principal motivo citado por empregadores ao anunciar cortes de pessoal nos Estados Unidos. Segundo levantamento divulgado no fim de maio, as demissões atribuídas à IA nos primeiros cinco meses do ano já superaram a soma registrada em 2024 e 2025. O total ligado à IA em 2026 chegou a 87.714 cortes, contra 54.836 em 2025 e 12.742 em 2024.

O ritmo de aceleração chama atenção: a IA respondeu por cerca de 40% de todos os cortes anunciados em maio, ante apenas 7% em janeiro. O setor de tecnologia é o mais atingido, com 38.242 demissões anunciadas só em maio — o maior número mensal desde agosto de 2024. A marca registrada deste ciclo é a coincidência entre demissões e desempenho financeiro forte: em 20 de maio, a Meta começou a notificar 8.000 funcionários, cerca de 10% do quadro, enquanto a Intuit, dona do TurboTax e do QuickBooks, anunciava mais 3.000 cortes.

Economistas pedem cautela na interpretação

Vários especialistas alertam contra atribuir tudo à IA. O mercado de trabalho americano segue relativamente resiliente: as folhas de pagamento cresceram 172.000 postos em maio, e os dados de março e abril foram revisados para cima. O efeito da IA, argumentam, está concentrado em setores específicos, sobretudo tecnologia, e não espalhado pela economia.

  • Não há aumento detectável no desemprego agregado entre trabalhadores expostos à IA desde o fim de 2022.
  • O primeiro efeito visível não é a demissão em massa, e sim o fechamento da porta de entrada para jovens em ocupações expostas.
  • Dados do Stanford HAI mostram queda de quase 20% no emprego de desenvolvedores de software com menos de 26 anos desde 2024.

Para o leitor brasileiro, o sinal mais relevante não é o volume bruto de cortes lá fora, e sim onde a dor aparece primeiro: nos cargos iniciais e nos profissionais mais jovens. Se o padrão se repetir aqui, o risco maior não é a substituição imediata de quem já tem emprego, mas a dificuldade de quem tenta dar o primeiro passo na carreira — algo que pressiona diretamente as políticas de formação e primeiro emprego no país.